Fagundes Varella



A poesia decadente de

Fagundes Varella*



Luís Nicolau Fagundes Varella, nascido na fazenda Santa Rita, no município de Rio Claro, Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1841, é o mais conhecido de nossos poetas malditos. Considerado pela crítica como um “romântico”, é também, e antes de tudo, um decadente, se não no sentido do movimento que deu origem e se mesclou com o simbolismo, ao menos em um sentido primordial do termo: aquele que decai. Apesar de ter tido um grande reconhecimento em vida, foi um desdichado, um daqueles seres cujo destino, mui atroz, torturou-o por trinta e três anos; o que não o impediu de deixar o legado de uma vasta e diversificada produção poética, ainda hoje difícil de se “classificar”.
Poeta errante por excelência, tanto na vida quanto na obra, Varella arrastou-se pelos empoeirados caminhos do Rio de Janeiro do século XIX, até seu corpo se estiolar nas pedras e espinhos do mundo e nas águas ardentes da vida: era alcoólatra. Mas, como escrevera Mário Donato, “não têm razão os críticos que o julgam um ‘alcoólatra poeta’, quando o contrário é que é verdade”[1]. Conta-se que quando seu primeiro filho nasceu, foi preciso pôr um anúncio no jornal para que ele tivesse conhecimento disso e voltasse para casa: estava numa de suas crises de andarilho. Pois andava muito, e a esmo, pelos caminhos mais ermos, errando de cidade em cidade, de fazenda em fazenda, bebendo e compondo.
Tem razão a historiadora literária Luciana Stegagno-Picchio quando diz que “a biografia desse hippie ante litteram é indispensável para o entendimento de sua obra poética”[2], por isso aqui me estendo um pouco sobre sua vida, a fim de poder iluminar parte de sua obra.
Aos dez anos de idade Varella muda-se com a família para Goiás, quando então seu pai fora nomeado juiz de direito de Catalão[3]. Quatro anos mais tarde muda-se para Angra dos Reis; depois para Petrópolis; depois para Niterói. Aos dezenove anos, em 1860, vai para São Paulo, onde passa a ser conhecido e reconhecido no meio acadêmico, não pelos estudos, mas pelos poemas publicados no Correio Paulistano, sobretudo alguns dedicados a uma prostituta pela qual se apaixonara, Ritinha Sorocabana, entre os quais, o poema Vem!..., inserido, com o título A uma mulher, nos Cantos Meridionaes de 1869, e que terminam com os seguintes versos:

“Vem, que me importa o murmurar do vulgo?
O dubio riso? o escarnecer das gentes?
Si agoa precisas que teus erros lavem,
Oh! de meus olhos verterei torrentes!”[4]

Essa paixão não durou muito, mas lhe rendeu alguns versos e certo escândalo. Por essa época “estudantil”, Varella bebia e festejava com freqüência, faltava às aulas e escrevia poemas e contos que ia publicando no Correio Paulistano e em revistas acadêmicas. “Só que de vez em quando, inexplicavelmente, desaparecia da circulação: anda a peregrinar, a pé, sem companhia, pelas vilas, campinas e bairros retirados...”[5].
Em 1861 publica, numa plaqueta de 30 páginas, Nocturnas, onde se encontram alguns de seus melhores versos, como Archetypo e A enchente, e onde também já se evidencia sua “errância” poética, tanto formal quanto temática.
Ainda nesse ano conhece Alice Guilhermina Luande, filha de um dono de circo e artista do mesmo, com quem se casa em maio do ano seguinte, 1862, e tem um filho, Emiliano (o anunciado no jornal). Por essa época Varella já gozava de “merecida fama como grande poeta acadêmico, farrista e relapso”[6], o que levou seu casamento ao fracasso: “andam ambos morando pelas casas dos parentes ou em residência cujos aluguéis nunca são pagos, o poeta continua bebendo e sumindo da mulher, perseguido pelos credores e pela sua eterna inquietação”. E é durante um desses “sumiços” que nasce seu filho, “numa ‘república’ de estudantes”[7]. Essa criança ajusta o poeta na vida social, mas apenas temporariamente, pois Emiliano morre aos três meses de idade, levando Varella novamente ao álcool e às ruas: “esteve viajando sozinho e a pé, em Porto Feliz, Sorocaba, Tietê e Itu”[8]. É desse período o famoso poema Cantico do Calvario, cujo tema é a morte do filho, incluído em Cantos e phantasias de 1865. Ainda nesse mesmo ano deixa a mulher na casa de seu pai e parte para Recife para continuar o curso de direito, iniciado em São Paulo, mas juntamente com o curso continua sua vida de boêmio. A notícia da morte de Alice o faz retornar à casa do pai e, em seguida, já em 1866, retorna a São Paulo para dar continuidade aos estudos, mas “aparece pouco, pelo menos na Faculdade”[9], e quando aparece está envolvido em brigas.
Em fins de 66 ou início de 67, desaparece de São Paulo e, supostamente, volta para Rio Claro, para a fazenda do seu pai, casando-se pela segunda vez. Na pena de Sílvio Romero: “de 1867 em diante torna-se obscura a biografia do ilustre fluminense. Sei apenas que iniciou então vida erradia pelo Rio, Niterói, Rio Claro, Mangaratiba, Angra dos Reis e outras cidades da província do Rio de Janeiro”[10]. Fato é, no entanto, que contraiu novo casamento e teve duas filhas que lhe sobreviveram. Em 1869 publica ainda Cantos do ermo e da cidade, além do já mencionado Cantos Meridionaes.
Faleceu em 18 de fevereiro de 1875, aos 33 anos, de embolia cerebral, deixando dois livros inéditos: o longo Anchieta ou o Evangelho nas selvas e Diario de Lazaro, ambos não bem vistos pela crítica. É que desde 1870 Varella já perdia suas forças, e tinha ciência disso: “Machina de escrever e fazer versos,/ Já não sei mais cantar,/ O segredo perdi das melodias,/ Agora é só rimar!”, escreve ele em Canção[11], de 1870. Depois, “de 1873 em diante a sua queda é brusca e completa”[12], e Anchieta ou o Evangelho nas selvas representa o seu último suspiro poético, um longo e fastidioso poema religioso.

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Autor de mais de uma centena de poemas, de ampla temática e, sobretudo, de variadas formas, Fagundes Varella é, dentre os poetas do período romântico brasileiro, aquele que mais sinceramente cantou sua própria dor: a dor de existir. Seu desconforto errante de andarilho e alcoólatra está presente em muitos de seus poemas. Poemas que lhe conferem um “ar” decadente, antes mesmo do decadentismo, e que por seu tom confessional ultrapassa o romantismo. Isso porque ele era, singularmente, um poeta de poucas mentiras. Seus reclames líricos são quase sempre verdadeiros, basta compreender um pouco sua biografia para se dar conta disso. Daí que sua vida irregular produziu uma obra irregular. Reúne num mesmo livro, não apenas várias formas, como vários temas: canta a dor da perda do filho, canta louvores às selvas e à solidão, canta louvores ao vinho e à embriaguez, canta os ermos rincões do campo e a cidade, tem ardores patrióticos, cantos sertanejos, ímpetos de exacerbado romantismo suicida. Em suma, canta tudo o que lhe passa pelo cérebro, mesmo com erros de rima e métrica.
Conseguiu com tudo isso deixar-se estar como um incômodo para a crítica. Foi muito mal visto por José Veríssimo, para quem é “poeta muito descuidado do seu estro e de sua arte, todo entregue à pura inspiração”[13]; foi elogiado por Antonio Candido, apesar de que, “a impressão deixada por ele, é, com efeito, de que nada fez senão beber, poetar, vaguear e desvairar-se”[14]; foi mal compreendido por Massaud Moisés, para quem “é uma espécie de súmula de nossa poesia romântica”[15] mas que o viu, acertadamente, como um “inadaptado” que “reedita na Paulicéia e algures o cisma baudelairiano”, cuja poesia “irrompe, como poucas no tempo, do liame entre Vida e Arte”[16]; foi tomado pelo preconceituoso Alfredo Bosi como “o epígono por excelência, o maior dentre os menores poetas saídos das Arcadas paulistas”[17], um “eterno adolescente”[18]; e considerado por Sílvio Romero como um “agitado”[19], cuja obra, “aparentemente pessoal, é uma das mais impessoais de nossa literatura”[20], e que recomenda para as “novas gerações”, pois, “não pode haver mais inteligente e sincero companheiro. Lede-o, lede-o”[21].
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Eu o li. E penso que de algum modo a sua obra reproduz muito bem a sua vida, entre o campo e a cidade, entre as prostitutas e a família, entre a vida acadêmica e a sarjeta, entre um sentimento religioso e o devaneio pagão de todo poeta; incompreensível para si mesmo, buscando sempre um lugar que lhe parecia não existir: “O exilado está só por toda a parte!”[22]. Certamente foi, como diz Romero, “uma natureza múltipla, variada, excessivamente excitável, atormentada por estímulos diversos”[23], mas não uma “súmula” do romantismo, ou que “lido após aqueles poetas [românticos], deixa-nos a impressão do já lido” [24], como dirá ainda José Veríssimo. Não foi Varella um mero artífice do verso, ao menos não até 1870, quando então irá se considerar uma “Machina de escrever”.
O vago desconforto de sua alma, sua inquietação de poeta maldito, de atormentado com o existir, transparece, por exemplo, na composição Horas malditas, da segunda parte do livro Cantos e phantasias:

“Ha umas horas na noite,
Horas sem nome e sem luz,
Horas de febre e agonia...
Como as horas de Maria
Debruçada aos pés da cruz.
(...)
N’essas horas tumulares
Tudo é frio e desolado!...
O pensador vacillante
Julga ver a cada instante
Livido espectro a seu lado.
(...)
Oh! essas horas tremendas
Tenho-as sentido de mais!
E os males que me causaram
Os traços que me deixaram
Não se apagarão jámais!”

Essa composição, representativa do desconforto existencial de Varella, é pouco freqüente nos poetas românticos anteriores a ele. Esse sentimento, que se diria de um “depressivo” ou mesmo de um esquizofrênico, é recorrente em sua obra. Como bem observa Edgard Cavalheiro, “predomina na poesia vareliana o lírico intimista, atormentado com os seus próprios problemas”[25]. Em um outro poema, intitulado Soneto, transparece um desgosto cósmico, quando descreve a beleza de um amanhecer campestre, conclui angustiadamente: “Porém minh’alma triste e sem um sonho/ Repete olhando o prado, o rio, a espuma:/ - Oh! mundo encantador, tu és medonho!”[26].
Se pensarmos em seu espírito inquieto, andarilho, alcoolizado, parecem ser muito pessoais os versos de Sombras! em que diz: “Andar e sempre andar! O globo inteiro/ Pendido atravessar como Caïm!/ Não achar um repouso, um termo, um fim/ Á dôr que róe, lacera e não descança!”[27], ou ainda, em versos de Desengano, depois de expressar desprezo pela fama, “Que me importa um nome impresso/ No templo da humanidade,/ (...) Se para escrever os cantos/ Que a multidão admira/ É mister quebrar as pennas/ De minh’alma que suspira?/ (...) Se nos desertos da vida,/ Romeiro da maldição,/ Tenho de andar sem descanço/ Como o Hebrêo da tradição?...”[28].
Que tipo de exílio sofria Varella? Que inquietação o fazia caminhar sem rumo, como um andarilho? Não saberia responder, talvez seja impossível. Mas creio que aquilo que o incomodava estava presente em alguns de seus poemas, justamente naqueles que Sílvio Romero diz que o definem como poeta, naqueles “em que aparecem essas incertezas, essas flutuações, essas névoas, esses claros e escuros, essas vagas aspirações, esses sonhos róseos e dúbios, esses matizes impalpáveis, essas ondulações quiméricas de um espírito inconsistente adormecido numa espécie de embriaguez”[29], e que ele chama de lirismo báquico.
Quando escreveu as linhas acima, Romero devia estar pensando em poemas como Nevoas, do qual há duas versões, ou, entre outros, Eu amo a noite, Queixas do poeta e Scismas á noite, ou no longo e belo Acusmata. Poemas com ares flutuantes, etéreos, dir-se-ia versos de um simbolista, como em Nevoas: “Assim eu fallava, nos amplos desertos,/ Seguindo os incertos lampejos da luz,/ Na hora em que as nevoas se estendem nos ares/ E choram nos mares as ondas azues.”[30]. Nesse mesmo tom musical e decadente, Varella canta também seu amor à noite: “Eu amo a noite quando deixa os montes,/ Bella, mas bella de um horror sublime”[31]; ou, em Sextilhas, com versos que lembram Augusto dos Anjos e Alphonsus de Guimaraens, dos quais é legítimo precursor[32]:

“Amo os nocturnos lampyrios
Que gyrão, errantes cirios,
Sobre o chão dos cemiterios,
E ao clarão de tredas luzes
Fazem destacar as cruzes
De seu fundo de mysterios.”

É importante sublinhar os adjetivos usados por Romero: incertezas, flutuações, névoas, claros e escuros, vagas aspirações, sonhos róseos e dúbios, matizes impalpáveis e ondulações quiméricas. Penso que são adjetivos que caberiam bem a muitos poetas simbolistas brasileiros.
Temos assim em Fagundes Varella não apenas uma série de poemas confessionais, que lhe deixam transparecer uma forte angústia existencial, como também todos os elementos de um poeta decadente em plena década de 1860, um “agitado” que escreveu poemas anti-escravocratas, liberais, sertanejos, bucólicos, urbanos e melódicas canções, um romântico que expressou seu amor às florestas, às verdes campinas, assim como à embriaguez e aos prazeres citadinos. Um poeta alheio aos mestres-escolas da poesia, para os quais também não deixara de cantar: “Lançai vossos preceitos e tratados/ Ás chammas vivas de voraz incendio.../ Alma que sente, que se inspira e canta/ Não conhece compendio.”[33].
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Se para Goethe, Hoffmann era um “demente”, e para os críticos americanos Allan Poe apenas um “vagabundo”, “um porco de gênio”, não há o que se espantar que críticos como Veríssimo e Bosi, fiéis da opus dei literária, vissem no autor fluminense apenas um poeta “descuidado” e “menor”. Até que eles foram complacentes.
O leitor agora que os julgue...
Camilo Prado


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Este prefácio é do livro Eu amo a noite e outros poemas de Fagundes Varella. Com ilustrações e capa de Aline Daka.


Se desejar adquirir o livro: Edições Nephelibata. 



* Uma primeira versão deste texto foi publicada com o título: Fagundes Varella: um Bardo boêmio, in Fazendo Gênero 8 – Corpo, violência e poder. – ST 63 – A escrita do eu: ficções e confissões da dor II [cd-room] – Florianópolis: Editora Mulheres, 2008.
[1] DONATO, Mário, O Anjo e o Demônio em Fagundes Varella, in VARELA, Obras completas. 2a.edição. São Paulo: Edições Cultura, 1945. p. XXI.
[2] PICCHIO, Luciana Stegagno-, História da literatura brasileira. Trad. de Pérola de Carvalho e Alice Kyoko. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. p. 212.
[3] Sigo aqui as informações biográficas dadas por Mário DONATO, Opus cit., p. XIV.
[4] VARELLA, Fagundes, Obras completas. 3 volumes. [Edição organizada e revista, e precedida de uma noticia biographica por Visconti Coaracy e de um estudo critico pelo Dr. Franklin Tavora]. Rio de Janeiro/ Paris: H. Garnier, s/d. vol. 2, p. 150 (Cantos Meridionaes).
[5] DONATO, Mário, Opus cit., p. XV.
[6] Idem.
[7] Idem, p. XVI.
[8] Idem.
[9] Idem, p. XVII.
[10] ROMERO, Sílvio, História da literatura brasileira, tomo 2. Rio de Janeiro: Imago Editora/ Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, 2001. p. 995.
[11] VARELLA, Fagundes, Opus cit., vol. 1, p. 277 (Avulsas).
[12] DONATO, Mário, Opus cit., p. XVIII.
[13] VERÍSSIMO, José, História da literatura brasileira. 4a.edição. Vol. 3. Brasília: Editora da UnB, 1963. p. 247.
[14] CANDIDO, Antonio, Formação da literatura brasileira. 5a.edição. Vol. 2. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia/ São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. p. 257.
[15] MOISÉS, Massaud, História da literatura brasileira. Vol. II. São Paulo: Cultrix, 1985. p. 153.
[16] Idem, p. 169.
[17] BOSI, Alfredo, História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1978. p. 129.
[18] Idem, p. 131.
[19] ROMERO, Sílvio, Opus cit., p. 996.
[20] Idem, p. 995.
[21] Idem, p. 1002.
[22] VARELLA, Fagundes, Opus cit., vol. 1, p. 130, (Vozes da America).
[23] ROMERO, Sílvio, Opus cit., p. 996.
[24] VERÍSSIMO, José, Opus cit., p. 247.
[25] CAVALHEIRO, Edgard, [Apresentação] in Fagundes Varela, Poesia. Rio de Janeiro: Agir, 1957. p. 11.
[26] VARELLA, Fagundes, Opus cit., vol. 1, p. 103, (Vozes da America).
[27] Idem, vol. 2, p. 47, (Vozes da America).
[28] Idem, vol. 2, p. 60/61, (Cantos e phantasias).
[29] ROMERO, Sílvio, Opus cit., p. 996.
[30] VARELLA, Fagundes, Opus cit., vol. 2, p. 115, (Cantos e phantasias).
[31] Idem, vol. 2, p. 216, (Cantos do ermo e da cidade).
[32] A aproximação estética com Augusto dos Anjos também é notável no poema Sobre um tumulo, presente neste volume. Além de Augusto dos Anjos e Alphonsus de Guimaraens, as imagens sangrentas de névoas de Fagundes Varella também refletiram em outro decadente digno de nota, o baiano Francisco Mangabeira.
[33] Idem, vol. 2, p. 170, (Cantos meridionaes - Introdução do poema Mimosa).

Marcel Schwob




Vísceras e Cores


Marcel Schwob nasceu em Chaville, França, em 23 de agosto de 1867. Erudito de berço, pois seus pais eram pessoas de alta cultura, foi aluno brilhante; depois jornalista, filólogo, poliglota, tradutor de literatura inglesa e um excelente contista.
Antes de chegar a Paris, por volta de 1881, Marcel já conhecia aqueles que o marcariam: E.T.A. Hoffmann, Allan Poe, T. Gautier, entre outros mestres da literatura fantástica. Mesclado a essas “raízes” estão seus conhecimentos de história antiga, grega, romana, medieval, assim como também seus estudos das culturas marginais e de outros autores, como Robert Louis Stevenson, pelo qual teve verdadeira paixão.
Foi contemporâneo e amigo de artistas como Paul Claudel, Gide, Valery, Daudet, Lorrain, Jarry, entre outros. De seus estudos sobre gíria saiu seu primeiro livro: Étude sur l’argot français (1889). Nos anos seguintes publicou Coeur double (1891) e Le roi au masque d’or (1892) — de onde foram traduzidos os contos desta seleção —; Mimes (1893); Le livre de Monelle (1894); Annabella et Giovanni (1894) entre outros que lhe renderam admiradores fervorosos, principalmente entre os simbolistas.
Casou-se com a atriz Marguerite Moreno em 1900; cinco anos depois, por conta de sua saúde frágil, uma gripe o leva à morte, deixando muitos textos incompletos e inéditos, alguns dos quais só a partir da década de 1980 é que começaram a ser publicados.
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Marcel Schwob é todo vísceras e cores. Sua escrita fantástica é carregada de sangue, perfumes e alimentos, mesclados com aspectos sinistros e maldosos do ser humano, apresentados de uma maneira que poderíamos chamar de mágica. Nele a arte da escrita alcança as esferas mais altas da prosa francesa. Entre os simbolistas seu nome é quase um segredo, pois sua perfeição enquanto contista parece tocar de perto a poesia mais imagética e decadente de Maurice Rollinat ou as mais belas páginas de Villiers de L’Isle-Adam.
Nesta seleção o leitor encontrará doze contos que provam porque Schwob é um autor de raros leitores. Sua prosa se aproxima, em certa medida, daqueles franceses mau vistos devido ao seu exagerado gosto pelo extraordinário, pelo sonho e pelos narcóticos.
Pelo título dado a esta seleta de contos — é quase inútil dizer — selecionei aqueles de aspecto fantástico, porém nem todos o são. E este aspecto nele é bastante singular, como o leitor poderá perceber. Trata-se de um fantástico, por um lado, invocador do passado, por outro, bastante interior. Schwob também é uma singularidade pela amplitude temporal de suas histórias, como observou Anatole France, sem exageros: “Há contos descritivos de todos os tempos, desde a época da pedra polida até nossos dias”*. Aqui, no entanto, o mais antigo é “As estriges”, ou “O incêndio terrestre”, se pensarmos que a história se passa em Sodoma e nas demais cidades queimadas pelo vingativo Jeová.
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Schwob não é um autor dos mais difíceis de traduzir, no entanto, pela riqueza de vocabulário foi-me forçoso recorrer a algumas poucas notas de rodapé — pelo que o leitor haverá de me perdoar. Os textos aqui presentes foram traduzidos das seguintes edições: Coeur double, [deuxième édition] Paris: Paul Ollendorff, Éditeur, 1891; e: Le roi au masque d’or, Paris: Les Éditions G. Crès et Cie., 1920. Pude confrontar minha tradução com as seguintes: El rey de la mascara de oro, tradução de Sol Noguera, Barcelona: Editorial Bruguera, 1980; e Corazón doble, tradução de Amanda Fons de Gioia, Buenos Aires: Centro Editor de América Latina, 1980.
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Considerando que todos os contos (com exceção de “A cidade adormecida”) são inéditos no Brasil, e que cada história de Schwob é uma singular passagem pelo desconhecido, resta desejar ao leitor uma boa viagem!

Camilo Prado




* in La vie littéraire. [Troisiéme série]. Paris: Calmann-Lévy Éditeurs, 1892, pp. 323-324.
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Este prefácio é do volume 15 da Coleção Nimbus : A cidade adormecida e outros contos fantásticos.


Se desejar adquirir o livro: lançamento em 15 de outubro/2011.

H. P. Lovecraft



H. P. Lovecraft


Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) nasceu em Providence, Rhode Island, nos Estados Unidos. Interessou-se desde cedo pela ciência e por suas conquistas modernas, bem como pelo ocultismo. Passou em retiro a maior parte de sua vida adulta, dedicando-se à composição de histórias de terror e de sobrenatural que influenciariam o desenvolvimento da moderna ficção científica.
Sua escrita, de teor imaginativo e não raro poético, desdobrando-se em estilos narrativos que combinam a ilusão de autenticidade e a verossimilhança com os lances mais extraordinários da invenção, é povoada por figuras aterrorizadoras, tais como extraterrestres e monstros misteriosos, que se interligam numa saga de teor mitológico cujas facetas se entremostram em contos de conteúdo metafísico.
Com isso Lovecraft tornou-se o grande renovador da literatura fantástica norte-americana e da ficção científica. Entre ele e Poe, apenas poderiam destacar-se dois nomes relevantes: Nathaniel Hawthorne e Ambrose Bierce. Outros há, evidentemente, mas não conseguiram romper do undergroud em que normalmente circula esse tipo de literatura. De modo que dele se pode dizer que está na contramão da literatura dos Estados Unidos, daquela que poderíamos chamar de “intelectual”, figurada por autores como William Faulkner e John Steinbeck, por exemplo. A tradição a que pertence segue por fora, talvez por baixo, pelos subterrâneos da arte literária. Seu ancestral mais ilustre é Allan Poe. Suas criações, no entanto, ligam-se mais aos mestres da literatura fantástica inglesa, sobretudo William Hodgson, Lord Dunsany, Arthur Machen e Algernon Blackwood.
Escreveu inúmeras obras: At the mountain of madness, The tomb, The lurking fear, The dream-quest of unknown Kadath, The doom that came to Sarnath, etc., algumas publicadas em tradução no Brasil.
Somente após sua morte é que suas obras começaram a ser editadas em livro. Até então publicara em revistas literárias. Devido à constante correspondência que mantinha com diversas pessoas, muitas delas escritores do mesmo gênero, em torno de seu nome gerou-se o que ainda hoje chamam de “O círculo Lovecraft”, onde sua mitologia permanece viva. E tão viva que já começou a se distanciar de seu criador. – Basta lembrar o leitor de que o livro Necronomicon, tão popular nos meios cinematográficos do gênero de horror, é uma de suas criações.
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Em Lovecraft há uma ligação muito forte com a literatura gótica – renovada, evidentemente – que o insere numa secular tradição literária: desde William Beckford, em inúmeros autores – E.T.A. Hoffmann, Allan Poe, Villiers de L’Isle-Adam, Sheridan Le Fanu, Marcel Schwob, William Hodgson, Maurice Renard, Gustav Meyrink, Arthur Machen, Lord Dunsany – manuscritos antigos, ruínas de cidades perdidas, catacumbas e subterrâneos são presenças constantes em contos fantásticos. O que seria talvez uma prova incontestável de que essa literatura nasceu do gótico – de Horace Walpole, por exemplo – e que segue se metamorfoseando, mesclando-se e recebendo novos rótulos, mas sendo sempre a mesma: uma espécie de resistência da imaginação aos limites que determinados aspectos da racionalidade humana procura impor sobre a vida e a arte de maneira geral.
Um grande teórico do século XX se pergunta: “por que a literatura fantástica não existe mais?”[1]. Tal pergunta surge, parece, por conta do gosto acadêmico de cristalizar as coisas para poder se debruçar sobre elas sem incômodos. Reduzir a literatura fantástica como algo exclusivamente pertencente ao século XIX permite analisá-la como uma múmia inerte sobre uma mesa de dissecção. Admiti-la, no entanto, como um ramo, como um amplo aspecto da arte literária ocidental é ter que considerá-la como elemento vivo na atualidade. Mais. Como algo perene, já que enquanto houver imaginação, e imaginativos, haverá com certeza obras de arte que abrirão portas para o desconhecido e o misterioso da existência humana.
Obviamente, é necessária alguma disposição de espírito por parte do leitor. E Lovecraft estava muito ciente disso: a literatura de horror sobrenatural, diz ele, “exige do leitor uma certa dose de imaginação e uma capacidade de desligamento da vida do dia-a-dia. Relativamente poucos são suficientemente livres das cadeias da rotina do cotidiano para reagir às batidas do lado de fora da porta”[2]. Mas quando isso ocorre e o leitor está diante de um autor que sabe indicar a porta – todas as fronteiras criadas pela torpe razão humana desmoronam-se e o universo surge tal como é: infinito e misterioso.
Eis o motivo de essa literatura – e aquilo que ela gera – ser subterrânea e pertencente aos sonhadores e aos raros de espírito.
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Neste volume o leitor encontrará algumas das melhores criações do ilustre misantropo de Providence, que haverá de conduzi-lo, por aberturas estreitas, para terras longínquas onde a imaginação é a grande guia – da beleza e do horror – e de onde não retornará sem máculas no véu de sua razão.

Renato Suttana / Camilo Prado

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Este prefácio, do livro A música de Erich Zann, tradução de Renato Suttana, eu escrevi a partir de um texto do Suttana, ele revisou, fez algumas alterações e assinamos juntos.

Se desejar adquirir o livro:


[1] Tzvetan Todorov, Introdução à literatura fantástica. Trad. Maria Clara Correa Castello. São Paulo: Perspectiva, 1975, p.175.
[2] H. P. Lovecraft, O horror sobrenatural na literatura. Trad. João Guilherme Linke. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1987, p.2.