H. P. Lovecraft



H. P. Lovecraft


Howard Phillips Lovecraft (1890-1937) nasceu em Providence, Rhode Island, nos Estados Unidos. Interessou-se desde cedo pela ciência e por suas conquistas modernas, bem como pelo ocultismo. Passou em retiro a maior parte de sua vida adulta, dedicando-se à composição de histórias de terror e de sobrenatural que influenciariam o desenvolvimento da moderna ficção científica.
Sua escrita, de teor imaginativo e não raro poético, desdobrando-se em estilos narrativos que combinam a ilusão de autenticidade e a verossimilhança com os lances mais extraordinários da invenção, é povoada por figuras aterrorizadoras, tais como extraterrestres e monstros misteriosos, que se interligam numa saga de teor mitológico cujas facetas se entremostram em contos de conteúdo metafísico.
Com isso Lovecraft tornou-se o grande renovador da literatura fantástica norte-americana e da ficção científica. Entre ele e Poe, apenas poderiam destacar-se dois nomes relevantes: Nathaniel Hawthorne e Ambrose Bierce. Outros há, evidentemente, mas não conseguiram romper do undergroud em que normalmente circula esse tipo de literatura. De modo que dele se pode dizer que está na contramão da literatura dos Estados Unidos, daquela que poderíamos chamar de “intelectual”, figurada por autores como William Faulkner e John Steinbeck, por exemplo. A tradição a que pertence segue por fora, talvez por baixo, pelos subterrâneos da arte literária. Seu ancestral mais ilustre é Allan Poe. Suas criações, no entanto, ligam-se mais aos mestres da literatura fantástica inglesa, sobretudo William Hodgson, Lord Dunsany, Arthur Machen e Algernon Blackwood.
Escreveu inúmeras obras: At the mountain of madness, The tomb, The lurking fear, The dream-quest of unknown Kadath, The doom that came to Sarnath, etc., algumas publicadas em tradução no Brasil.
Somente após sua morte é que suas obras começaram a ser editadas em livro. Até então publicara em revistas literárias. Devido à constante correspondência que mantinha com diversas pessoas, muitas delas escritores do mesmo gênero, em torno de seu nome gerou-se o que ainda hoje chamam de “O círculo Lovecraft”, onde sua mitologia permanece viva. E tão viva que já começou a se distanciar de seu criador. – Basta lembrar o leitor de que o livro Necronomicon, tão popular nos meios cinematográficos do gênero de horror, é uma de suas criações.
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Em Lovecraft há uma ligação muito forte com a literatura gótica – renovada, evidentemente – que o insere numa secular tradição literária: desde William Beckford, em inúmeros autores – E.T.A. Hoffmann, Allan Poe, Villiers de L’Isle-Adam, Sheridan Le Fanu, Marcel Schwob, William Hodgson, Maurice Renard, Gustav Meyrink, Arthur Machen, Lord Dunsany – manuscritos antigos, ruínas de cidades perdidas, catacumbas e subterrâneos são presenças constantes em contos fantásticos. O que seria talvez uma prova incontestável de que essa literatura nasceu do gótico – de Horace Walpole, por exemplo – e que segue se metamorfoseando, mesclando-se e recebendo novos rótulos, mas sendo sempre a mesma: uma espécie de resistência da imaginação aos limites que determinados aspectos da racionalidade humana procura impor sobre a vida e a arte de maneira geral.
Um grande teórico do século XX se pergunta: “por que a literatura fantástica não existe mais?”[1]. Tal pergunta surge, parece, por conta do gosto acadêmico de cristalizar as coisas para poder se debruçar sobre elas sem incômodos. Reduzir a literatura fantástica como algo exclusivamente pertencente ao século XIX permite analisá-la como uma múmia inerte sobre uma mesa de dissecção. Admiti-la, no entanto, como um ramo, como um amplo aspecto da arte literária ocidental é ter que considerá-la como elemento vivo na atualidade. Mais. Como algo perene, já que enquanto houver imaginação, e imaginativos, haverá com certeza obras de arte que abrirão portas para o desconhecido e o misterioso da existência humana.
Obviamente, é necessária alguma disposição de espírito por parte do leitor. E Lovecraft estava muito ciente disso: a literatura de horror sobrenatural, diz ele, “exige do leitor uma certa dose de imaginação e uma capacidade de desligamento da vida do dia-a-dia. Relativamente poucos são suficientemente livres das cadeias da rotina do cotidiano para reagir às batidas do lado de fora da porta”[2]. Mas quando isso ocorre e o leitor está diante de um autor que sabe indicar a porta – todas as fronteiras criadas pela torpe razão humana desmoronam-se e o universo surge tal como é: infinito e misterioso.
Eis o motivo de essa literatura – e aquilo que ela gera – ser subterrânea e pertencente aos sonhadores e aos raros de espírito.
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Neste volume o leitor encontrará algumas das melhores criações do ilustre misantropo de Providence, que haverá de conduzi-lo, por aberturas estreitas, para terras longínquas onde a imaginação é a grande guia – da beleza e do horror – e de onde não retornará sem máculas no véu de sua razão.

Renato Suttana / Camilo Prado

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Este prefácio, do livro A música de Erich Zann, tradução de Renato Suttana, eu escrevi a partir de um texto do Suttana, ele revisou, fez algumas alterações e assinamos juntos.

Se desejar adquirir o livro:


[1] Tzvetan Todorov, Introdução à literatura fantástica. Trad. Maria Clara Correa Castello. São Paulo: Perspectiva, 1975, p.175.
[2] H. P. Lovecraft, O horror sobrenatural na literatura. Trad. João Guilherme Linke. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1987, p.2.

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