Marcello Gama



Marcello Gama:
uma poesia em movimento


Illuminado ou verme,
que se dirá de mim quando eu putrefizer-me?


Marcello Gama, cujo nome de registro era Possidônio Cezimbra Machado, nasceu no dia 3 de março de 1878, em Mostardas, no Rio Grande do Sul. Com 17 anos foi para Cachoeira do Sul e mais tarde para Porto Alegre, onde publicou os livros: Via sacra (1902, poesia), Avatar (1905, teatro), Noite de insomnia (1907, poema), além de poesias e textos diversos, dispersos em jornais e revistas[1]. No Correio do Povo, jornal de Porto Alegre, publicou crônicas e crítica literária. Fundou a revista Artes e letras (1898) e A lua (1900), esta última em Cachoeira do Sul. Com Zeferino Brasil criou também a revista teatral A peste bubônica.

Era seu companheiro de boemia, além de Zeferino Brasil e outros escritores riograndenses, Felipe D’Oliveira, com quem mais tarde seguiria trabalhando no Rio de Janeiro, onde ambos foram viver.

É interessante a amizade entre eles, pois se encontram em Gama certos aspectos proto-surrealistas e Felippe D’Oliveira será quem, no Brasil, publicará o primeiro livro de poesia surrealista: Lanterna verde, em 1926. Mas é em seu primeiro livro, Vida extincta, de 1911, bem como em versos de Alguns poemas, livro póstumo de 1937, que se notam parentescos estéticos com Marcello Gama, aliás, bastante natural, considerando o comum convívio no meio ambiente simbolista da Porto Alegre do início do século passado.

Pouco há sobre Gama na historiografia crítica brasileira. E quando sobre ele se diz alguma coisa, costuma-se ligar seu nome ao de Cesário Verde, talvez por conta de Andrade Muricy, que o incluiu no Panorama do movimento simbolista brasileiro dando-lhe um lugar no limbo de nossa literatura e fazendo menção à poesia do cotidiano de Cesário Verde e Mário Pederneiras, o que os posteriores repetem até hoje (esquecendo-se, no entanto, de Pederneiras). Afirmações, por exemplo, como a de Massaud Moisés, de que “Marcello Gama filiou-se, mais do que outros simbolistas, à poesia do cotidiano de Cesário Verde”[2], parece-me ter mais motivos lusófonos do que consistência. Gama não era “filiado” a nada, como também é duvidosa a “filiação” desses “outros simbolistas”.

Por outro lado, “legítimo precursor do Modernismo” é um tipo de afirmação de quem procura aproximar forçadamente (sempre!) poetas do início do século XX ao “movimento revolucionário de 1922” (sic), como faz Moisés[3]. Uma vez que tal movimento foi muito mais retrógrado e conservador (e vale lembrar: discípulo do fascista Marinetti) do que “moderno”; fazendo-se necessário então, hoje mais do que ontem, encontrar “origens brasileiras” para os caiporas do café.

* * *

Numa carta datada de setembro de 1984, a Mário Cesariny, o poeta português Nicolau Saião diz que sua “estadia junto dos anarquistas ibéricos foi um equívoco provocado pelo facto de eu julgar que as pessoas que se dizem livres têm poesia na cabeça e no corpo, trocando: que são a própria poesia”. E completa: “a Anarquia, para mim, teria de ser a poesia em movimento”[4].

Marcello Gama, que dentre muitos poetas é um decadente por natureza e simbolista, talvez, por opção, criou uma obra, assim como uma vida, movimentada inteiramente pela poesia. Não apenas isso tem alguma transparência em seus versos (“nasci para ser poeta... E que querem que eu faça?”), como também em sua vida: “integralmente poeta, queria viver no sonho e no mundo da poesia”[5], observou Andrade Muricy. Isso que significa, aliado ao espírito acrata de muitos de seus versos, que ele vivia a poesia em movimento, ou seja, a Anarquia segundo a concepção de Nicolau Saião.

“Esse notável poeta, escreveu ainda Muricy, nunca se submeteu às obrigações duma vida regular, à burocracia, nem buscou sinecuras. Foi jornalista e conferencista e, por fim, empregado de escritório comercial. Tinha horror à vida do quotidiano, à vida do profissional”. Nem mesmo fez os tais “estudos regulares”[6], de onde se supõe que era autodidata, ao menos nas profissões que exerceu.

Não deixa de ser curioso então, e contraditório, que um poeta que tinha “horror à vida do quotidiano” seja mencionado como tendo “pendor para os temas do cotidiano”[7].

O aspecto mais evidente de sua poesia, parece-me, é a sua intimidade. Pois ele é um poeta intimista, um lírico intimista. A figura de seus familiares (a mãe falecida, as irmãs, etc.), suas crendices caseiras (o “agoiro”) e a sua lida diária com a poesia, carregada de certezas e dúvidas (“Sono un poeta o sono un imbecille”), são uma constante nos seus versos.

Perceberá o leitor que Marcello não é um poeta de vocábulos raros, como foram muitos de seus contemporâneos aparentados, como ele, ao Simbolismo. Sua poesia, mesmo que colorida pelo humor, muitas vezes sarcástica, ou por vezes indignada com a vida e com os viventes, é sombreada pela constante presença da morte. O que lhe permite um lugar entre os poetas do Decadentismo brasileiro[8]. E o seu principal poema, Noite de insomnia, com aquele “E zás! derramo a tinta!”, seguido de um ato de excessiva crendice popular, leva-nos a pensar em uma exacerbada sinceridade artística, não numa poesia do cotidiano.

Marcello Gama não canta o cotidiano, não poetiza o cotidiano, não tematiza o cotidiano. Ele insere no cotidiano a magna magia da poesia. Seu cenário caseiro e familiar é sempre distorcido por um olhar mágico, supersticioso às vezes, mas nunca faz a descrição desse cotidiano por si mesmo. O cotidiano surge na sua poesia como ambiente, não como tema. Seu tema é ele mesmo[9].

* * *

Creio que não seria trabalho fácil encontrar seus semelhantes no Brasil. Por mais que seu nome permaneça no limbo, sua poesia, que é pouca, move-se e blasfema originalidade. Tem uma inquietação agressiva, sente-se nela o pulsar de uma alma inquieta, um intimismo e um movimento sui generis. Além de que, inúmeras imagens, como a do álamo que “está a convalescer, no hospital da paizagem”, são de matizes tão surreais que não seria de todo exagero considerá-lo um proto-surrealista. (Lembrando que o surrealismo não se reduz à “escrita-automática”).

Suas imagens, plásticas e mentais, lembram às vezes o tom insano e decadente de Francisco Mangabeira e Augusto dos Anjos: “Já então o senhor maestro Pensamento/ começara a reger a opera — Tormento”. Ou ainda, quando entram versos de sinestesias: “Tenho allucinações auditivas: escuto/ um longinquo rumor continuo de engrenagens./ Nas brumas do meu ser vão-se esgueirando imagens/ sensoriais: obcessões de amarguras enormes;/ perturbações mentaes quasi epileptiformes”. É talvez por aí, pelas inovações estéticas, que ele se aproxima de outros poetas, seus contemporâneos brasileiros, não do “cotidiano” de Cesário Verde.

* * *

Por fim, deixo ao leitor o prazer de fruir a poesia de Marcello Gama na grafia antiga, para que este seja completo. Antes, porém, lembro que Avatar, mesmo estando em versos, é uma peça teatral (que não se encontra no português antigo), e que este boêmio (que se pode perceber preocupado com a própria boemia em “Versos de um convalescente”) teve um fim nada poético:

“Marcello Gama faleceu, após uma vida irregular e boêmia, em 7 de março de 1915, no Rio de Janeiro, em conseqüência dum acidente, quando, depois das 4 horas da manhã, viajando de bonde, com destino à sua residência, na Rua Castro Alves no. 123, no Méier, ao passar, adormecido, pelo viaduto do Engenho Novo, foi arremessado à via férrea, de vinte metros de altura, por um movimento brusco do veículo.”[10]

Tinha então 37 anos. Deixou três livros publicados e um longo poema, talvez inacabado segundo Muricy, com o título de O violoncelo do Diabo — que só Deus sabe onde foi parar.

Camilo Prado

Nota : Este prefácio é do livro Noite de Insomnia de Marcello Gama, da Coleção Arquivo Decadente, e você pode adquirir nas Edições Nephelibata.
Com 4 ilustrações e capa de Aline Daka.


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[1] Suas obras completas, publicadas pela Sociedade Felippe D’Oliveira, com o título Via sacra e outros poemas, Rio de Janeiro, 1944, trazem os três livros mencionados mais poemas “Dispersos”.
[2] Massaud Moisés, História da literatura brasileira: simbolismo. São Paulo: Cultrix, 1984, p.97.
[3] Idem, p.100.
[4] Nicolau Saião, Olhares perdidos. São Paulo: Escrituras, 2006, p.147.
[5] Andrade Muricy, Panorama do movimento simbolista brasileiro – vol. 2. [2ª. edição]. Brasília: MEC/INL, 1973, p.714.
[6] Idem.
[7] Massaud Moisés, Opus cit., p.99.
[8] Mesmo Massaud Moisés o aceita como de “respiração decadente e simbolista”. Opus cit., p.98.
[9] Sobre o assunto, conferir o artigo “Marcello Gama: decadente, supersticioso e anárquico”, in Letrônica: Revista Digital do PPGL, Vol. 3, No 1 (2010).
[10] Andrade Muricy, Opus cit., p.714.

5 comentários:

  1. Apreciei sobremaneira a análise da obra do poeta Marcello Gama, que dizia ser cachoeirense, portanto meu conterrâneo, embora tantos estudiosos deem Mostardas como sua terra natal.
    Gostaria de conhecer a fonte das informações apresentadas no texto acima sobre sua vinda para Cachoeira aos 17 anos.
    Interessante que localizei na edição do jornal O Commercio (Cachoeira), 27/2/1907, a respeito de uma conferência que Marcello Gama fez no Teatro Municipal dois dias antes, a seguinte nota: "... o inteligente moço dissertou com verve e arte, profissionalmente, revelando-se profundo conhecedor da - Mentira - o sugestivo tema que preparara com muita habilidade para recrear o auditório que tanto desejava ouvir a palavra desse boêmio das letras que depois de longa ausência veio visitar a sua terra natalícia."
    Consta ainda que ele teria sido um precursor da publicidade, tendo trabalhado no ramo com João Daudt de Oliveira, tio de Felippe d'Oliveira.
    Agradecida.

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    1. Olá Mirian,
      obrigado.
      Aos 17 anos em Cachoeira... não lembro mais, já faz alguns anos que escrevi esse prefácio. Talvez tenha tirado essa informação das "obras completas, publicadas pela Sociedade Felippe D’Oliveira, com o título Via sacra e outros poemas, Rio de Janeiro, 1944". Ao final desse livro tem um texto de um amigo do Gama que dá algumas informações sobre sua biografia. mas não tenho certeza, esse livro era da biblioteca. Agora, a menção do jornal ao dizer "depois de longa ausência veio visitar a sua terra natalícia" talvez se refira ao fato de ele ter vindo visitar o RS, já que por essa época acho que já morava no RJ. Não sei, mas se nasceu em Cachoeira, então Muricy e Massaud Moisés estariam equivocados? Muricy era um cara muitíssimo informado, hein!
      Lembro que li algo sobre no RJ ele trabalhar com o D'Oliveira, e se este era publicitário... então é provável que Gama também o fosse.
      Mas bem, de Mostardas ou de Cachoeira, o mais importante é sua obra, que consegui re-editar, sobretudo o belo "noite de Insomnia".
      Saudações!
      Camilo.

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    2. Obrigada pela resposta, Camilo. Concordo contigo. Não importa o berço do Marcelo Gama, mas sua obra. E creio que críticos da envergadura de Massaud Moysés e Muricy não lançariam informações que não tivessem embasamento.
      Tenho um blog sobre a história de Cachoeira do Sul e estou preparando postagem para lembrar o centenário da sua morte, que se dá amanhã, 7 de março. Convido-te a dar uma olhada: historiadecachoeiradosul.blogspot.com.br
      Abraço!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Olá.
    Sou pesquisador familiar de Mostardas, de onde minha família paterna se originou. Minha avó comentava que Marcelo Gama era seu primo. Apesar de não haver confirmado a ligação entre eles, encontrei o registro de batismo de Possidônio Cezimbra Machado naquela paróquia, confirmando que o poeta era natural daquela região.
    Fiquei muito feliz pela coincidência de, como Marcelo Gama, ter morado em Cachoeira do Sul, onde fiquei por oito anos e visito frequentemente por causa da minha mãe.
    Não gosto muito de poesia, mas hoje, ao ler pela primeira vez alguns trabalhos de Marcelo Gama, achei impressionante.
    Abraço.

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