Rubén Darío



Algumas notas sobre
o maior poeta das Américas



Félix Rubén Garcia Sarmiento nasceu em Metapa, na Nicarágua, em janeiro de 1867. Mas passou toda a infância em León, na casa dos avós. Mais tarde adotou, de um avô, o sobrenome “Darío”. Aos treze anos de idade publicou seu primeiro poema. Aos quinze ele já colaborava em jornais da capital, Manágua, para onde se mudou. Suas primeiras publicações, no entanto, saem em Santiago do Chile, onde, na época, ele residia: Abrojos (1887), Primeras notas (1888), inicialmente intitulado Epístolas y poemas, e Azul (1888), poesia e contos, que se tornará um de seus livros mais conhecidos e que é um dos marcos do modernismo nas Américas.
Viveu em El Salvador, Chile, Guatemala, Costa Rica, Argentina, entre outros países do continente. Morou também em Paris e Barcelona; viajou por quase toda a Europa. Esteve no Rio de Janeiro em 1906, como representante da delegação nicaragüense, para participar da Terceira Conferência Pan-americana. Trabalhou como redator e correspondente em diversos jornais da Nicarágua, Argentina e Madrid. Conheceu e travou amizade com muitos de seus contemporâneos, entre eles, Horácio Quiroga e Leopoldo Lugones e os espanhóis Juan Ramón Jiménez e Ramón Maria del Valle-Inclán.
Em 1896, em Buenos Aires, publica aquela que será talvez a sua obra mais importante e que consolida a modernidade literária no mundo hispânico: Prosas profanas y otros poemas. Ainda se destaca na sua bibliografia o volume de poemas Cantos de vida y esperanza de 1905, publicado em Madrid, como obra importante da modernidade literária no mundo hispânico.
De passagem por San Salvador, em 1889, Darío se casa com Rafaela Contreras; devido ao golpe militar daquele ano, ocorrido no dia seguinte ao seu casamento, vai para Guatemala, de onde ataca os golpistas com seus textos. Sua esposa faleceu poucos anos depois, em 1893, quando então ele se casa com a nicaragüense Rosario Murillo. Mas logo se separa e, vivendo em Madrid em 1899, junta-se com Francisca Sánchez del Pozo, uma camponesa analfabeta, com a qual terá quatro filhos, dos quais apenas um sobreviveu.
Em janeiro de 1916, já bastante doente — desde jovem que Darío exagerava na ingestão de bebidas alcoólicas — ele retorna a León, a cidade de sua infância, e ali, em fevereiro do mesmo ano, morre e é sepultado na catedral da cidade com enorme honraria. Sua companheira Francisca e seu filho ficam abandonados na Europa, então em plena guerra. Sua cidade natal, Metapa, hoje se chama Darío.
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Rubén é muito mais conhecido como poeta do que como contista. Ainda que sua obra poética seja bem pequena em comparação àquela em prosa. Considerando seus contos, novelas textos autobiográficos e ensaios, sua poesia é próxima de um terço das suas obras completas. Mas esta fama de poeta em detrimento daquela de prosador, deve-se a força de sua poesia. Talvez ele seja o único ao qual se pode sem exageros dar o epíteto de o maior poeta das Américas. Ele é o primeiro poeta hispano-americano a ultrapassar o Atlântico e levar o modernismo à Espanha. Todas as crianças hispano-americanas o estudam na escola; todos os poetas hispano-americanos o conhecem. Pois ele não é apenas um poeta nicaragüense, ele é um poeta pan-americano.
Mas um poeta que, se foi ávido leitor de Victor Hugo e Paul Verlaine, também foi de Allan Poe, Adolfo Bécquer e Villiers de L’Isle-Adam. É na proximidade desses que se encontram seus contos fantásticos. Evidentemente com o traço firme de sua originalidade, que se poderia resumir em algumas características: brevidade, um senso muito próprio de humor e determinada cor local, melhor, continental. Esta última característica, por exemplo, encontramos aqui com muita evidência nos contos “D. Q.”, “A larva” e “Huitzilopoxtli”.
A maior parte dos contos de Darío foi publicado em jornais e revistas e somente após sua morte é que se começou a publicar em livros. Porém, o título da presente seleção não é arbitrário, pois já em algumas das várias edições de suas obras completas se encontram alguns desses contos separados dos demais sob o subtítulo “Cuentos fantásticos”. Também há publicações em separado que trazem a expressão no título, é o caso da antologia organizada por José Luis Piquero, Quince cuentos fantásticos*, e da edição organizada por José Olívio Jiménez, que trás sob o título Verónica y otros cuentos fantásticos** nove dos doze contos aqui selecionados.
Dos contos deste volume, apenas “O pássaro azul” foi publicado pelo autor em livro, e justamente em um de seus livros mais conhecidos, o “Azul”. Os demais contos só chegaram aos livros postumamente. E por curiosidade, vale notar que “O conto de Martín Guerre” é uma história verídica; foi publicado pela primeira vez em 1914 em “La Nación” de Buenos Aires, na época um dos maiores jornais do continente.
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Que até agora não se tenha editado nada da prosa de Darío no Brasil, não é de se estranhar; no meu caso, como tradutor e editor, é até de se sentir um pouco lisonjeado, pois com o presente volume derruba-se mais um tijolo deste muro que nos separa da literatura do resto do continente americano. Não é muito, eu sei, mas, de tijolo em tijolo, quem sabe se com o tempo o muro não desmorona...

Camilo Prado

Nota: este prefácio é do livro Contos fantásticos de Rubén Darío, volume 14 da Coleção Nimbus, que se encontra em fase de revisão.


* Rubén Darío, Quince cuentos fantásticos. Barcelona: Navona Editorial, 2009.
** Rubén Darío, Verónica y otros cuentos fantásticos. Madrid: Alianza Editorial, 1995. Há também duas edições anteriores, de 1976 e 1982, pelo mesmo organizador e editorial, com o título Cuentos fantásticos.

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